segunda-feira, 15 de março de 2010

A Cauda é Longa


Tem coisas que me trazem à mente uma sensação de NOVO. E não necessariamente precisa ser alguma coisa nova. O NOVO é mais uma sensação do que uma palavra ou referência temporal. Escrevo isso para dizer que, às vezes, um livro me traz essa sensação (li muitos livros novos que me pareceram velhos, livros novos que pareceram novos e alguns velhos que eram, de fato, novos).


'A Cauda Longa', de Chris Anderson, é um livro que daqui a 5 anos vai ser tão velho quanto a Administração Científica de Taylor, mas seu conteúdo é tão atual que ler o livro HOJE é imprescindível pra entender um pouco mais do mundo AGORA. E do quê se trata esse livro, então? Eu diria que se trata de um livro sobre nicho.

A cabeça é breve, a cauda é longa, e a decisão, difícil

O título faz referência a um tipo de gráfico da estatística que tem uma concentração maior (cabeça) nas primeiras entradas e depois a concentração se desfaz (cauda) rumo ao infinito. Tá bem, mas o que isso tem a ver com nicho ou fragmentação de mercado? A idéia é bem simples: o que Chris Anderson identificou com esta pesquisa foi uma infinidade de 'caudas longas' em vários setores. Explico melhor: com a 'democratização das ferramentas de produção' (leia-se acesso mais fácil à tecnologia), as prateleiras físicas tornaram-se inviáveis num mundo de opções cada vez mais variadas e segmentadas.

Exemplo: Quantas vezes você já ouviu na rádio, já leu uma crítica musical, já viu na vitrine de uma loja de música o título 'Leão da Neméia'? Esse é o nome de uma faixa que contém 1 (um) solo de bateria. Como baterista, a descrição desse pedaço de música me chamou a atenção e acabei comprando o arquivo em mp3 por 2 reais. Acabei descobrindo nesses 10 minutos de som idéias rítmicas que me deixaram perplexo até agora. Certo, como foi possível a obtenção da faixa? Encontrei-a na internet, onde o espaço de oferta é ilimitado. Será que algum lojista ocuparia um espaço da sua prateleira para disponibilizar um produto que menos de 0,1% dos consumidores se sentiriam atraídos a comprar? Aí é que está a idéia toda. Imaginem um gráfico como esse aqui,


onde a área de vermelho seja os hits do momento (músicas mais vendidas, por exemplo), e a área de amarelo seja todo o resto (outras músicas que não as mais vendidas). Bom, até hoje (até o advento do comércio virtual) a oferta era toda focada em atender a demanda pela cabeça (área vermelha). O que a democratização do espaço (virtual) fez foi ampliar a oferta de produtos que antes eram oferecidos somente para nichos muito específicos e que, por conta disso, eram 'encobertos' pelos produtos mais vendidos. A faixa com 10 minutos de solo de bateria estava disponível para compra ao lado de um álbum da Ke$ha.

Tá, e daí? E daí que o autor foi atrás desse mercado e viu, por exemplo, que as músicas 'desconhecidas' da loja virtual da iTunes vendiam tanto quanto os hits (por mais desconhecida que fosse a música, ela seria comprada pelo menos 1 vez em três meses com 98% de chances de acontecer). Estenda essa lei de oferta e demanda para um universo de 11 milhões de músicas no catálogo e entenda porque a analogia com a prateleira física é válida.

Como disse Bob Dylan, the times they are a-changin', e é melhor tentar entender o que está acontecendo do que esperar pra que alguém te explique o que deu errado só depois.

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